2006/12/27

André Petry - Estado de orfandade

veja:http://veja.abril.com.br/271206/andre_petry.html

"Deve ser um horror trocar jantaresem Nova York por excursões pela lamae pela violência do Jardim Ângela,na periferia de São Paulo"
A vitória da sociedade sobre a ganância salarial dos parlamentares é bonita, mas esconde uma cara feia – esconde que a sociedade brasileira, que nunca teve canais muito potentes de expressão, está perdendo o pouco que tinha. Sim, alguns brasileiros se mexeram, foram às ruas, ergueram faixas e bandeiras, picharam asfalto, distribuíram frascos de óleo de peroba, mas tudo em focos de mobilização espontânea, tudo meio caótico, errático, voluntarioso, meio sem eira nem beira, tudo sob um certo tom de desespero – para não falar do aposentado que acorrenta a si próprio ou, muito pior que isso, da baiana que esfaqueia um deputado.
As manifestações desajeitadas são o dado mais revelador do estado de afonia social. Onde estão as passeatas dos sindicatos? Onde estão os protestos irreverentes dos estudantes? Ora, as entidades que habitualmente canalizam e organizam a expressão popular, como CUT ou UNE, estão confortavelmente acomodadas nos braços do estatismo petista. Alguém poderia dizer que tais entidades estão paradas porque nunca-na-história-deste-país os trabalhadores e estudantes foram tão bem tratados. Como é patente que isso não corresponde à realidade, a explicação é outra: tais entidades estão cooptadas, aparelhadas e apelegadas.
O voluntarismo e a desorganização também podem ser explicados pela mutação do próprio PT, que cumpria bem seu papel de agitador das massas, mas saiu de cena. Enredado em seus interesses eleitorais, enfronhado na máquina pública, tomado pela casta de barnabés, está deixando de ser um instrumento de expressão popular. Na melhor das hipóteses, consegue colocar na rua sua massa cativa, mas sem o brilho de outrora. Porque o brilho de uma manifestação popular é a antítese do cabresto. Tudo o que é controlado pelo patronato ocasional perde a espontaneidade popular.
O que, então, entrará no lugar do PT que se apelegou e de sua turma? Quem vai ocupar o espaço de canal das massas? Eis o desafio central, que ficou tão evidente na semana passada, e a resposta soa óbvia: deveria ser a oposição. Mas a oposição, coitada, não tem nenhuma inserção popular, não tem nenhuma penetração na organização de trabalhadores, não entra na periferia das grandes cidades, não dialoga com os segmentos populares, não conhece a realidade dura, feia e malcheirosa da maioria dos brasileiros.
Claro que tal tarefa não será cumprida pelos barões do pefelismo. Restariam, como opção, os emplumados do PSDB. Fernando Henrique já enxergou isso, e recentemente até conclamou os tucanos a colocar o pé na periferia. Aparentemente, não lhe deram ouvidos. Compreende-se. Deve ser um horror trocar jantares em Nova York por excursões pela lama e pela violência do Jardim Ângela, na periferia de São Paulo. Para Fernando Henrique, esse banho de povo também não foi fácil. Certa vez, confessou que, quando era cercado pelo povaréu durante a campanha eleitoral, não gostava que o tocassem e tinha medo de que alguém lhe surrupiasse o relógio de pulso...

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